Sobre medidas, frustrações, e a decisão que mudou tudo quando criamos a Rhode Concept.
Eu (Thainara) sempre tive oscilação de peso. Desde criança. E quem vive isso sabe o quanto a relação com as roupas pode ser complicada, não pela roupa em si, mas pelo que ela te faz sentir quando não cabe.
Quantas vezes fui até uma loja, já sabendo que meu tamanho de calça era 40, mas só de bater o olho na peça, eu sabia: aquele 40 não ia entrar em mim. E eu saía de lá com aquela sensação que todo mundo que já passou por isso conhece, não é raiva da loja. É uma coisa mais funda. É o corpo sendo colocado em questão.
Mas a memória que mais ficou foi a do vestido da minha formatura.
Eu escolhi um vestido lindo. Na arara, dizia M (40/42). Pensei: é o meu, vai caber perfeitamente. Quando fui provar, a modelista disse que precisaria soltar em alguns pontos estratégicos. E mesmo com todo mundo ao meu redor dizendo que eu havia emagrecido, eu só conseguia pensar uma coisa: "Como emagreci se o vestido não caiu como uma luva?"
"Entrei num ciclo que muitas mulheres conhecem: a roupa não coube, logo sou eu que estou errada."
Passei a formatura com aquela sombra. E demorei um tempo para entender que o problema não era o meu corpo, era uma tabela de medidas que não foi feita para mim, nem para a maioria das mulheres reais.
Quando decidi transacionar a Rhode Concept como marca autoral, eu estava crua. Não entendia de produção, de ficha técnica, de modelagem. Mas quando sentei com a modelista para desenvolver a primeira coleção e ela perguntou se os tamanhos seriam os padrões, eu parei. Contei tudo isso para ela.
Ela ouviu. E então me explicou algo que mudou completamente a forma como eu enxergava a criação de roupas: a tabela ABNT é uma base, não uma obrigação. Cada marca pode e deve criar a sua própria.
Foi aí que decidimos: na Rhode Concept, cada tamanho cresceria 6 cm em relação ao anterior. Não estou dizendo que somos a única marca a fazer isso, outras marcas também têm suas próprias tabelas. Estou dizendo que, para nós, essa escolha não foi estratégica. Foi pessoal. Nasceu de uma frustração real, e virou parte do que a Rhode Concept é.
Uma mudança técnica pequena no papel. Que para mim, como consumidora, teria feito toda a diferença.
E foi aí também que aprendi que roupa não é só estética. É modelagem. É composição de tecido. É o quanto aquele material cede ou sustenta. São esses elementos invisíveis que determinam se uma peça vai abraçar ou frustrar muito antes de qualquer número na etiqueta.
Hoje, quando uma cliente me diz que comprou uma calça Rhode Concept e ela finalmente coube onde sempre foi difícil, eu entendo exatamente o que ela está sentindo. Porque eu já senti o contrário.
Não criamos a Rhode Concept, para ser perfeita para todas as mulheres, criamos para ser honesta. Para que o tamanho seja um ponto de partida, não um veredicto.
